Mania de Viver

Ela chegou a ficar tr√™s meses trancada no quarto injetando coca√≠na sem ter disposi√ß√£o sequer para ir ao banheiro; fumou maconha, tomou anfetaminas, anorex√≠genos, cheirou desodorantes; foi parar na UTI com uma grav√≠ssima infec√ß√£o adquirida em fun√ß√£o da coca√≠na cujas seq√ľelas est√£o espalhadas pelo seu corpo at√© hoje. Chegou a ser desenganada pelos m√©dicos e viu a cara da morte; mas sobreviveu para contar sua hist√≥ria.

Uma hist√≥ria que, a exemplo de v√°rias outras, tem a curiosidade como ponto de partida. E a trag√©dia como ep√≠logo. Com 11 anos, Regina Maria Lancellotti se encantava com o cigarro. Para ela, era lindo ver a fuma√ßa se esvaindo e muito elegante ter um cigarro entre os dedos. De encantada passou a usu√°ria. E as drogas come√ßaram a cobrar seu tributo. Um ano depois, o cigarro j√° n√£o bastava. “Eu comecei a cheirar benzina e tinner”, relembra. Mas s√≥ isso n√£o era o suficiente. Os calmantes que Dona Lucy, sua m√£e, tomava eram um convite para “viagens” mais alucinantes. A curiosidade, marca registrada de Regina, a levou a experimentar drogas mais pesadas. O tradicional col√©gio Mackenzie, de S√£o Paulo, foi o palco em que debutou no uso da subst√Ęncia que foi o √≠cone das gera√ß√Ķes de 60 e 70: a maconha. A depend√™ncia estava se instalando e com ela as dissimula√ß√Ķes e nega√ß√Ķes t√£o t√≠picas dos drogadependentes. Dona Lucy e seu Rubens, pai de Regina, desconfiavam que ela usasse drogas, mas a agressividade com que ela confirmou o uso espor√°dico da mesma, dando-o como fato consumado, impedia um di√°logo mais construtivo. O processo de co-depend√™ncia teve in√≠cio. A fam√≠lia, sempre na incerteza sobre o uso da droga sistem√°tico por parte de Regina, come√ßou a ficar emocionalmente abalada. “Fic√°vamos sempre na d√ļvida porque ela sempre dissimulou muito bem”, afian√ßa Dona Lucy. Essa dissimula√ß√£o dava a no√ß√£o de auto-controle que Regina sempre procurou demonstrar e a certeza de que poderia se aventurar e se destruir com outras drogas. O caminho do fundo do po√ßo, que foi iniciado com inalantes e maconha, continuou com outra droga muito presente no in√≠cio da d√©cada de 70: o LSD. Regina experimentou a droga e dois ou tr√™s anos depois a coca√≠na veio se aliar ao rol de subst√Ęncias com as quais ela deprimia o organismo e a mente.

“Eu usava drogas que n√£o estavam dispon√≠veis no Brasil, como ampolinhas de Perventin, uma anfetamina importada, √† √©poca, da Argentina, que √© muito forte, com efeito similar ao da coca√≠na”, diz.

A curiosidade e a dependência, já latentes em Regina, a levaram para caminhos ainda mais tortuosos. Foi a vez do cogumelo e peyote, um cacto alucinógeno que, sintetizado em laboratório, era conhecido pelo nome de mescalina.

Nada escapava √† necessidade m√≥rbida de Regina pela droga. Quando os primeiros desodorantes anti-perspirantes chegaram ao mercado, foram parar em seu corpo. Avan√ßo Super-Seco e Moderato eram os seus preferidos. “Esses desodorantes possu√≠am um efeito que era o mesmo do lan√ßa-perfume, o que me bastava para ficar louca”, conclui. Ela passava dias cheirando desodorantes, mesmo sabendo das conseq√ľ√™ncias funestas que eles promoviam no seu organismo como o ataque tenebroso que faziam ao f√≠gado, fato que mais tarde tornou-se dolorosamente comprovado. Os calmantes que a m√£e tomava, Mogadon entre eles, tamb√©m eram consumidos por ela, assim como anorex√≠genos (Moderex, Inibex) que ela misturava com √°lcool, um coquetel explosivo que cedo a fez conhecer os corredores dos hospitais. “Com o prop√≥sito de querer emagrecer, conseguia receita com o m√©dico e detonava as caixas compradas em apenas tr√™s dias”, lembra. Os calmantes a faziam vagar pela casa, sem prop√≥sito, sem objetivo outro que n√£o o de alcan√ßar est√°gios inconceb√≠veis de inconsci√™ncia.

Cocaína na veia de cinco em cinco minutos

Essa busca fren√©tica pelas drogas s√≥ poderia redundar na mudan√ßa de personalidade e comportamento apresentados por Regina. √Č sabido que quando a drogadepend√™ncia se instala, leva o dependente qu√≠mico a orbitar em torno da droga, perdendo o interesse por quaisquer outras atividades em que ela n√£o esteja envolvida. Com Regina foi um pouco diferente. “Embora n√£o tivesse perdido o interesse pelos estudos – fez tr√™s faculdades e uma p√≥s-gradua√ß√£o – ela chegava da rua e passava direto por n√≥s, indo se trancar no quarto”, lembra Dona Lucy. N√£o permitia tamb√©m que se falasse a respeito do problema, procurando n√£o chegar a casa travada pela a√ß√£o das drogas. “Somente uma vez ela chegou a casa chorando e me contou que havia comido cogumelo; eu nem sabia que isso existia; conversei com ela, perguntando porque fazia aquilo e ela respondia que era por curiosidade”, observa a m√£e. Perdeu o interesse pela fam√≠lia, dificilmente conversava em casa, o que tornava o problema pior pois, filha √ļnica, recebia aten√ß√£o exclusiva dos pais. Sa√≠a e n√£o dizia para onde ia e nem a que hora voltaria. Chegou a ficar dias fora de casa. “Eu tinha uma atra√ß√£o por tudo o que √© proibido”, confessa Regina.

A insaci√°vel curiosidade de Regina pelas drogas fazia com que passasse por situa√ß√Ķes bisonhas e maltratasse cada vez mais o organismo. Uma das hist√≥rias que conta diz respeito √†s apostas que fazia com os companheiros de v√≠cio sobre quem conseguia ficar em p√©. O usu√°rio cont√≠nuo de coca√≠na esgota o corpo muito rapidamente. Quando esse esgotamento ocorre, o corpo quer descansar, mas o dependente n√£o consegue. “Voc√™ fica rolando de um lado para o outro e n√£o consegue dormir”, afirma Regina. Para vencer essa fase, que ela considerava pavorosa, ela e os outros usu√°rios da droga, utilizavam Mandrix, um potente indutor de sono que n√£o circula mais hoje no mercado. E a√≠ vinha a aposta. “O Mandrix abalava mesmo, era imposs√≠vel n√£o dormir”. Ela e os colegas de adic√ß√£o apostavam quem conseguiria ficar sem dormir e o √ļltimo que ca√≠a ganhava, no dia seguinte, um papelote extra de coca√≠na. Essa roleta russa com a vida Regina levou de forma sistem√°tica por mais de 25 anos. O esboroamento de suas defesas org√Ęnicas e emocionais eram claros, mas ela ainda achava que detinha controle sobre as drogas.

“Eu chegava at√© o fundo do po√ßo e quando via que a coisa estava ficando mais feia que o normal, puxava o freio de m√£o, dava um tempo, me recuperava um pouco somente para reiniciar o processo”, explica.

A lama do fundo do po√ßo foi encontrada e pisada em 1984, curiosamente com um sucesso. No interior de S√£o Paulo, ela abriu uma loja de roupas indianas e explodiu. “Vendia at√© os pregos da parede”, diz. Com o sucesso da loja, o bolso come√ßou a engordar e com ele o v√≠cio. Dinheiro f√°cil, acesso f√°cil e Regina mergulhou de vez na coca√≠na. Embora procurasse n√£o injetar nada devido aos hematomas que provocava, voltou a usar essa forma de administra√ß√£o em 1987 e o m√©todo foi eleito como preferido. “Cheguei a uma situa√ß√£o em que me picava de cinco em cinco minutos”. Na escravid√£o da droga, Regina chegou a passar tr√™s meses trancada no quarto, injetando noite e dia sem parar. Nem ao banheiro ia, limitando a fazer suas necessidades fisiol√≥gicas num balde em cima da cama. “Tinha tanta alucina√ß√£o que eu via bicho saindo debaixo da minha cama querendo pegar o meu p√©”.

Hospitalizada e desenganada pelos médicos

O sucesso da loja n√£o era o suficiente para bancar o v√≠cio. A solu√ß√£o foi traficar. Tr√™s anos depois de ter aberto o empreendimento, ela o via sumindo – como a coca√≠na que devorava – perdido para o tr√°fico. O seu dom para neg√≥cio n√£o bastou para sustentar a adic√ß√£o. Como pegava droga em consigna√ß√£o e consumia mais do que vendia, come√ßou a vender o que tinha na loja para pagar os fornecedores da droga. J√° n√£o ligava para mais nada, j√° n√£o √≠a mais para a empresa, deixava tudo por conta dos funcion√°rios. “Eu via que chegara a um ponto em que ia morrer”, relembra. Entretanto, nem essa sensa√ß√£o de morte iminente a demovia da id√©ia de abandonar as drogas e procurar tratamento. Em Pirassununga, cidade onde morava, chegou a jogar a seringa de aplica√ß√£o fora, mas no dia seguinte, sem lugar para comprar outra e com uma fissura enorme pela droga, fez uso da mesma seringa – suja e contaminada – para administra√ß√£o da coca√≠na. De imediato sentiu um frio intenso e, logo depois, com outra aplica√ß√£o, dores violent√≠ssimas. Era o √°pice da sua drogadi√ß√£o. E ela teve de pedir ajuda.

Levada pelos amigos para o hospital, nem assim ela admitia para a fam√≠lia e para os m√©dicos que era uma drogadependente. “Ela me telefonou dizendo que estava com uma febre muito grande e que ningu√©m descobria o que era”, afirma Dona Lucy. No hospital foi constatada uma hepatite avan√ßada. Ela estava com o f√≠gado dilatado com perigo de rompimento. Outras complica√ß√Ķes demonstraram aos m√©dicos que seu quadro era grav√≠ssimo e ela foi aconselhada a vir para S√£o Paulo. Internada com urg√™ncia no Hospital 9 de Julho, come√ßou-se a busca do foco infeccioso. Foi acometida de uma parada renal, outra digestiva e encarrilhou cinco pneumonias seguidas. Regina permanecia escondendo que era drogadependente. Somente depois de quatro meses hospitalizada, j√° no isolamento da UTI (achava-se que era portadora de HIV), j√° sem poder articular direito, sem poder se locomover, com o corpo inteiro em s√≠ncope, ela resolveu que falaria sobre seu problema. T√£o logo revelou que era drogadependente, os m√©dicos descobriram o foco infeccioso no cora√ß√£o. Regina possu√≠a uma endocardite bacteriana, uma grav√≠ssima infec√ß√£o. Mas n√£o tinha Aids.

O progn√≥stico do seu caso era sombrio. Todos os antibi√≥ticos tentados, inclusive alguns importados pelo pai, n√£o surtiram efeito porque seu sistema imunol√≥gico estava destro√ßado pela coca√≠na. A indica√ß√£o cir√ļrgica foi feita, mas os m√©dicos (entre eles Dr. Adib Jatene) achavam que ela n√£o tinha condi√ß√Ķes de aguentar sequer o ato anest√©sico, t√£o grave era seu estado. A opini√£o que Dona Lucy e Sr. Rubens mais ouviam era que ela morreria e, mesmo que por um milagre sobrevivesse a cirurgia, ficaria demente. A cirurgia, √ļltima tentativa, foi realizada em junho de 1988 pelo Dr. Ricardo Mello, ent√£o m√©dico da equipe do Dr. Zerbini do Hospital Benefic√™ncia Portuguesa, de S√£o Paulo. A v√°lvula necrosada do cora√ß√£o foi retirado e ela sobreviveu. Pesava 38 quilos, tendo passado seis anos fazendo teste de HIV. Hoje, Regina coleciona as seq√ľelas deixadas pela cirurgia. Sua oxigena√ß√£o √© 50% inferior ao de uma pessoa sadia. Sem f√īlego, com cansa√ßo permanente, n√£o pode fazer nenhum esfor√ßo, perdendo com isso oportunidade de trabalhar. “Eu fiquei deficiente”, sentencia. Seu cora√ß√£o est√° dilatado com um processo de fal√™ncia do m√ļsculo card√≠aco. “Na √©poca me deram um ano a mais de vida somente”. E completa: “Devo minha vida a Deus, pois foi minha f√© Nele que me salvou”.

Encarar a vida

Outras s√©rias complica√ß√Ķes advindas de anos de administra√ß√£o de drogas s√£o as hepatites que contraiu. Ela possui as do tipo B e C. As duas s√£o aut√™nticas bombas-rel√≥gio. Essa √ļltima adquirida devido √† administra√ß√£o de coca√≠na com agulhas contaminadas, incuba por um per√≠odo de mais ou menos 10 anos, para s√≥ ent√£o eclodir. “E quando isso acontece, ela desenvolve uma cirrose de f√≠gado ou um c√Ęncer, ambos fatais”, observa. E complementa: “A grande maioria de portadores de HIV tamb√©m t√™m hepatite, e essa √ļltima merece ser convenientemente tratada”. Essa lucidez sobre a gravidade do seu quadro n√£o foi suficiente para que Regina abandonasse as drogas, mesmo depois de ter passado por uma opera√ß√£o delicada como a que passou. O que a sensibilizou de forma definitiva foi o nascimento de Tuanny, sua filha, em 1994. Ela percebeu que se n√£o parasse com o uso, deixaria √≥rf√£ uma crian√ßa que ela insistiu em ter por amor a Deus, mesmo indo contra os progn√≥sticos dos m√©dicos que diziam que seu cora√ß√£o n√£o ag√ľentaria a gravidez.

Regina procurou o GREA – Grupo Interdisciplinar de Estudos de √Ālcool e Drogas, do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, em 1995, e iniciou o tratamento que a libertaria de uma vez por todas da escravid√£o das drogas. Tuanny j√° estava com um ano quando o marido de Regina descobriu-se portador de HIV, afundado que estava nas drogas e no √°lcool. Diante desse quadro, s√≥ lhe restava abandonar definitivamente os dois: as drogas e o marido. Assim que descobriu a soropositividade do marido, Regina passou a trabalhar em ONGs – Aids. Ela foi morar com os pais, com quem est√° at√© hoje. E √© nesse lar, um apartamento modesto em S√£o Paulo, que Regina encontrou alguma paz de esp√≠rito para criar a filha e rever alguns projetos de vida. Projetos pequenos e de curto prazo, ela admite, pois com problemas no cora√ß√£o e com uma hepatite grav√≠ssima que pode ou n√£o eclodir, ela precisa administrar sua vida todos os dias em que acorda viva. A solidariedade dos pais e dos novos amigos √© fundamental. Quando no hospital, Regina lembra que n√£o recebeu um telefonema sequer. “Correram not√≠cias de que eu tinha morrido; essas not√≠cias chegaram ao interior o que foi suficiente para que o que restou de minha loja fosse saqueado”, afirma com indisfar√ß√°vel amargura. H√° um ano o marido faleceu. A droga e o √°lcool n√£o permitiram que ele se tratasse de modo conveniente da Aids.

L√° se v√£o 43 anos desde que Regina nasceu. Olhando para tr√°s, ela atribui o in√≠cio de tudo √† gera√ß√£o contestadora em que cresceu. Os anos 60 e 70 foram pr√≥digos em romper com valores sociais e culturais herdados do p√≥s-guerra. “A droga, por exemplo, n√£o era coisa de gente de todas as classes como √© hoje; s√≥ filhinho de papai que vinha dos EUA √© que trazia”, relembra. Ela afirma que o uso da droga a levava a outros estados de consci√™ncia que ela tanto almejava. “Eu n√£o queria prejudicar ningu√©m”. Dona Lucy concorda com a filha e cr√™ que a grande virtude de Regina, sua imensa curiosidade, foi o passaporte para o inferno em que mergulhou. “Ela sempre foi muito inteligente e se aprofundava em qualquer tema que a interessasse”, diz.

“Em n√≠vel espiritual, me parece que eu vim dirigida nessa vida para resolver de uma vez por todas esse problema”, acredita Regina.

O que assombra em seu depoimento, √© a serenidade com que trata n√£o s√≥ seu passado como seu futuro. Diante das portas da morte tantas vezes, ela surpreende ao falar do seu grave estado de sa√ļde e encarar que pode morrer a qualquer hora. Prefere encarar a vida e por isso vive, vive muito, algo que deixou de fazer ao longo de 28 anos, quando pela primeira vez, cheirou benzina e fumou maconha.