“Vitória” sobre as drogas

Laura Soares Maffei quase sucumbiu. E o peso que envergava seu corpo, desancava seu espírito, demolia sua alma tinha vários nomes: álcool, tabaco, maconha, cocaína, lança-perfume, cheirinho da loló, chá de cogumelo, haxixe. A lista é longa e para chegar ao ponto final dela, Laura palmilhou um caminho pedregoso, negro, cercada de almas tão torturadas quanto a dela e tanto quanto ela incapazes de galgar a borda do poço.

Laura escorregou várias vezes e várias vezes chafurdou na lama mais escura das drogas. Na busca desenfreada da “nóia”, esgueirou-se por favelas, buracos, bocas de fumo. Traficou, usou cheques manchados de sangue roubados de vítima de latrocínio cometido por outras pessoas. Ela mesma chegou a roubar a própria família. Perdeu empregos, manipulou amigos, torrou patrimônio, perdeu a bússola da vida que só apontava numa direção: a morte pelo uso da droga. Mas aí apareceu Vitória. E o que era negro começou a ficar cinza.

“Ah, não insulteis jamais uma mulher que cai! Quem sabe sob que peso a pobre alma sucumbe” Victor Hugo

A farmácia ficava no outro lado da rua. Foi a porta de entrada para Laura. Ninguém precisou apresentar um amigo, um baseado, uma carreira. Bastava conversar com os colegas de classe sobre drogas para que isso a estimulasse. Ela foi até a farmácia, comprou um vidro de benzina e, junto com uma amiga do prédio onde morava no Rio de Janeiro, cheirou. E gostou do que sentiu. “Parecia que eu tinha acordado um monstrinho que pedia a todo instante para sair do ar”, afirma. A partir daí, Laura, que só tinha 10 anos de idade, só pararia de injetar, cheirar, fumar e beber muitos anos depois. Aos 13 anos já ingeria álcool – servido nos bailinhos que começou a freqüentar – e logo depois descobriu maconha (junto com um grupo de amigas) e a cocaína (apresentada por um namorado). De 1977 a 1996, Laura só colecionou desastres, algo bem diferente do que poderia estar previsto para uma menina da classe média carioca.

Filha de pais que a conceberam um tanto tarde (a mãe com 38 anos, o pai com 60), Laura freqüentou bons colégios graças ao empenho da tia, irmã do seu pai (então falecido) que, por ser casada com um homem de posses, pôde proporcionar-lhe boas escolas. “Eu sempre fui boa aluna; fazia diversos cursos extracurriculares”. Entretanto, o uso contínuo das drogas cobrou sua fatura também no campo educacional. Não conseguiu concluir o segundo grau, tendo iniciado o último ano dessa fase por oito vezes, tamanho era o estrago que as drogas já haviam feito. Ela também havia adquirido um ritmo de consumo. “Não foi um começo abusivo, ou seja, que passasse de fins-de-semana ou férias”. Esse início “regrado” rapidamente evoluiu para um consumo desenfreado. Álcool, maconha, cocaína logo começaram a ter a companhia de chá de cogumelos, anfetaminas, lança-perfume e haxixe, entre outros.

“Ela gostava demais de baile; foi o que a matou”

Laura não podia ouvir falar em uma droga que não houvesse experimentado. Rapidamente se encarregava de achá-la e verificar seus resultados. Entrou na roda viva (o certo não seria “roda morta”?) das drogas, ora cheirando ou tomando anfetaminas para ficar acordada, ora fumando e bebendo para dormir e poder exercer alguma atividade no dia seguinte. E tudo isso tinha um preço, um preço que cedo Laura descobriu. O primeiro preço que Laura teve que pagar foi o econômico. A fronteira entre o usuário da droga e o traficante por vezes é muito tênue e Laura ultrapassou essa fronteira quase no instante em que começou a se drogar. Convivendo com pessoas que traficavam para sustentar o vício, Laura foi conhecendo as bocas de fumo do Rio de Janeiro. “No começo eu só acompanhava, mas depois que adquiri alguma autonomia passei a comprar e vender sozinha”.

O “negócio” incluía a passagem de cheques roubados no comércio de uma cidade do interior do Rio de Janeiro (alguns oriundos de latrocínio praticado por bandidos de favelas do Rio) e com o dinheiro adquirido ir para o Rio onde comprava a droga, revendendo-a onde morava. Laura não participava, entretanto, dos grandes “negócios”. Um “médio” do qual ela participou consistiu em levar para sua cidade uma carga de cocaína para uma boca que só traficava maconha. Mais experiente, ensinou os novatos a misturar e embalar a cocaína. Tudo pela droga. “Não lucrei nenhum centavo; tudo o que eu fazia, todo o dinheiro que recebia ainda era pouco para bancar as farras”. Os contatos que estabeleceu incluíam personalidades contraditórias. Enquanto alguns a estimulavam a cair fora das drogas (geralmente traficantes que não usavam), outros seriam capazes de matá-la. Desses últimos, Laura afirma que realmente sentia medo.

O segundo preço que Laura descobriu, também cedo, foi o das perdas. Foram empregos, amizades, tempo consumido enquanto estava drogada, tempo não vivido porque não estava sóbria. A dignidade ficou ao largo, os valores se inverteram a tal ponto que Laura chegou a roubar para financiar o vício. No desespero de ficar sem dinheiro – e dinheiro era sinônimo de droga – Laura usava da boa fé de amigos, parentes e colegas de trabalho. Manter-se no emprego era uma tarefa árdua a que ela só se submetia por que não encontrava outra forma de conseguir dinheiro. Ao longo dos 19 anos, ela acredita ter passado por mais de 45 empregos. Foi faxineira, balconista de loja, atendeu em oficina mecânica, garçonete, ajudante de cozinha, auxiliar de pintor de paredes. Em todos eles, a história se repetia: ficava um mês ou dois, arrumava o dinheiro para comprar drogas, se drogava, ficava envergonhada e pedia demissão.

“Amo os homens que pensam, mesmo que pensem de maneira diferente de mim. Pensar já é ser útil; é sempre, em todo o caso, fazer um esforço para chegar a Deus”

Camuflava a dependência de drogas ilícitas com uma droga lícita: o álcool. Em um banco em que trabalhou, recém-promovida, gostando do emprego, pediu demissão depois de uma noitada em que mais uma vez carregou no álcool. Mentir para encobrir suas deficiências ou manipular pessoas a fim de conseguir dinheiro tornou-se quase rotina. Forjava das mais simples doenças até um aborto. Nesse último caso, envolveu a mãe e os chefes do local em que trabalhava. Mas nem assim conseguia dinheiro que fosse suficiente para saciar seu vício. Morava sozinha no Rio de Janeiro, possuía um apartamento próprio, mobiliado, com telefone. O equilíbrio financeiro nunca era alcançado porque o desequilíbrio emocional era muito maior. Gastava tudo e quando os recursos se esgotavam sempre tinha uma história triste para contar a amigos ou à família. Desfez-se de objetos pessoais até que, não tendo mais do que se desfazer, vendeu o apartamento. E continuava a desfazer-se como pessoa.

A ação da droga em seu estado de espírito reflete muito bem os estágios pelos quais pode passar a maioria dos drogadependentes. A droga de escolha de Laura era a cocaína. Muito embora não desprezasse as demais, o pó era seu principal elemento de fuga da realidade. No início, Laura não revelava grandes alterações de comportamento pois, como a coca é estimulante, e Laura sempre foi extrovertida, poucas pessoas percebiam que ela estava sob a ação narcótica da droga. Com o abuso, veio a necessidade de isolamento. Mesmo quando estava acompanhada, a apatia era evidente e Laura mal conseguia falar, limitando-se a apontar o objeto quando precisava de alguma coisa. A combinação com outras drogas só acelerava sua desorientação geral. Como usava uma para fazer um efeito e outra para fazer outro, Laura provocou danos consideráveis em seu organismo.

Com uma vida assim, seus relacionamentos eram tão passageiros quanto os empregos que arranjava. “Nunca fui de ter relacionamentos duradouros, acho que em função de eu não querer que nada ou ninguém interferisse na minha vida e decisões durante minha ativa”. As pessoas com as quais se envolveu tipificam o meio em que vivia. O primeiro foi com um alcoólatra, também usuário de drogas. Ela o conheceu às seis horas da tarde e às dez da noite do mesmo dia estavam morando juntos. A relação foi um fracasso e acabou na delegacia de mulheres. O segundo, pai de sua filha, não bebia e nem se drogava. Em compensação era imaturo, inseguro e inconstante, e se tornou uma marionete nas mãos de Laura. “À época eu já não bebia, mas fazia com que ele saísse de madrugada para comprar droga para mim”. A terceira relação foi com um homem de um nível social muito inferior ao de Laura e também não deu certo. “Creio que essa relação com um homem casado era reflexo da baixa auto-estima que eu tinha”.

“Oh, o amor de uma mãe! Amor que ninguém esquece! Pão maravilhoso que um Deus partilha e multiplica. Mesa posta na casa paterna, todos têm-no em parte e todos têm-no inteiro”

A vida de Laura começou a dar certo em outubro de 1995. Lá se iam 19 anos com ela varando a penumbra da vida. Sem perspectivas de futuro, sem tem porque lutar, sem ter porque sair desse beco, desse hiato que a droga provoca na vida. No interior da Bahia, um dos inúmeros locais em que viveu, já que sem destino e referências, qualquer lugar em que a droga estivesse ela estaria também, soube que estava grávida. Estava com quatro meses de gestação, quatro quilos de pó para traficar na cidade, objetivando receber quatro mil reais pela operação. Sua idéia era pagar 2 mil reais ao traficante e com o restante comprar um computador. Os planos foram alterados. Tão logo soube da gravidez, resolveu que não faria mais aquilo e encarou o traficante a quem devia, sob pena de ser torturada ou, pior, morta. Outra resolução foi tomada pela mãe Laura: não se drogaria mais.

Mas os anos em que passou entre bebida, pó, erva e anfetamina cobraram seu tributo na pequenez da frágil Vitória. Prematura, Vitória nasceu com cinco meses e meio e inacreditáveis 935 gramas (que chegaram a 700) e 36 centímetros. Vitória passou 89 dias na UTI neonatal, lutando para sobreviver. Desses 89 dias, 83 Laura passou ao seu lado, levando leite, conversando com ela, meio que implorando para que Vitória vingasse, fizesse jus ao nome e desse um novo sentido na vida conturbada de Laura.

E Vitória atendeu. Mas Laura não resistiu. “Foi difícil manter-me sóbria depois deste sufoco”. Ela tinha medo da “vida limpa”. Gradativamente, Laura foi voltando a se drogar e ao fim de seis meses estava no mesmo ponto em que havia parado, se drogando, traficando, vivenciando tudo o que tão bem conhecia e que um dia jurara abandonar em nome da filha, a mesma filha que acabara levando para comprar droga na última vez que se drogou.

Entretanto, Vitória realmente dera um novo sentido à vida de Laura. Ela não conseguia mais permanecer naquele estado com Vitória ao lado. Ora, de que adiantava a vitória pela vida que a filha travara, se ela não tinha a mesma fibra para se livrar do vício? Um profundo auto-questionamento começou a pulsar na alma de Laura até que ela, sabedora de que não poderia proporcionar nada para a filha caso não se tratasse, jogou a toalha e se internou num centro de recuperação de dependentes químicos. Hoje, Laura afirma que deve a Vitória o seu um ano e meio em recuperação. Depois que sua filha saiu do hospital, ela nunca mais conseguiu se drogar sem culpa. “Eu tinha uma enorme vontade de modificar minha vida; só não sabia por onde começar”. Sua filha foi seu grito por auxílio, um grito que ela manifestara algumas vezes ao longo da dependência, mas que sempre caía no vazio da sua própria negação diante de um problema que era tão visível e destruidor.

“Segura-nos pela alegria, e sobretudo pelas lágrimas; moço, te amaldiçoamos, ancião, te adoramos”

O nascimento de Vitória foi o divisor de águas na vida de Laura. A partir do dia em que ela se internou no centro de dependentes químicos, tomou a decisão de deixar seu passado para trás. Ela não o apagou, não o engavetou, não pôs uma pedra em cima. Qualquer uma dessas atitudes seria negar que conheceu o mais puro desespero, o pântano mais fundo. As pessoas com as quais se relacionava também ficaram num passado muito presente (porém distante) e servem de estímulo para que não volte a se vergar diante das drogas. Nem dos traficantes com os quais negociava Laura tem medo. A maioria deles está morta e ela tomava cuidado para não dever a esse pessoal barra mais pesada. “Além disso, eu era um grão de areia no universo deles e hoje não tenho mais serventia já que larguei as drogas”. Algumas pessoas que a conheciam dos tempos das noitadas, repudiam e criticam seu comportamento lúcido. Mas ela não se abala. “Eu entendo que a minha recuperação fere quem ainda não viu a negação de sua própria dependência”.

“O que mais me surpreende hoje na minha recuperação era minha irregularidade de vida, a dificuldade que eu tinha de concluir objetivos e metas, enfim esta dificuldade de iniciar e terminar um projeto, a falta de percepção e a distorção dos meus valores, que me cegavam a ponto de me considerar normal no meio de um mundo anormal. Os desvios de caráter, os roubos, o tráfico, os riscos inconseqüentemente vividos, a falta de qualidade dos relacionamentos. Tudo isso são motivos, hoje, para que eu não me culpe e sofra, mas persevere na condução da minha vida daqui em diante, sempre vigilante e atenta aos meus procedimentos, aos meus reais valores e às posturas por mim adotadas. Acredito que sem essa reformulação de vida, de caráter, de hábitos, não obterei o sucesso almejado para minha recuperação. Prova disso é o nascimento da minha filha Vitória no período que antecedeu meu início de recuperação”.

“E o fogo vê-se nos olhos dos moços, mas nos olhos dos velhos, vê-se a luz”

Os relacionamentos vividos hoje por Laura são sadios. Joelma, uma amiga que trabalhou com ela numa loja e vivia chamando sua atenção quando de suas bebedeiras, atualmente está muito feliz com sua recuperação e, segundo a própria Laura, “hoje há uma relação de troca entre nós”. Seu atual marido sabe de tudo pelo que ela passou. Os dois se conheceram em um grupo de auto-ajuda e procuram crescer juntos. Ela gosta de afirmar que ele ganhou uma filha maravilhosa de dois anos e ela uma enteada de 14 anos tão maravilhosa quanto. E os quatro estão comemorando a chegada de Vitor Hugo que, mais do que trazer o nome de uma das maiores figuras da literatura mundial e francesa, iluminará ainda mais o caminho do encontro consigo mesmo que Laura finalmente resolveu trilhar. Hoje, Laura afirma que o que pretende para si é continuar humildemente no caminho da recuperação.

Ela é crua (e quase cruel) com a definição do seu problema: “Sou portadora de uma doença física, mental e espiritual, progressiva e, já que incurável, com determinação fatal; não obterei jamais a cura, mas tenho como estacioná-la com minha abstinência”. Agora, são duas as coisas que Laura deseja. A primeira é publicar seu livro “Ciranda de Drogas – A dor e o prazer de deixar a roda”, onde relata, com tintas bem vivas, seus quase vinte anos no abraço mortal das drogas. A segunda é sentir intensamente a experiência de viver algo que ela deixou de fazer duas décadas atrás. O tempo perdido está, por definição, perdido. Mas há muito o que fazer para uma pessoa que tem somente 30 anos de vida. “Cada vez que partilho minha história e cada vez que um, entre mil jovens, se questiona a respeito do seu consumo de droga e decide abandoná-lo, eu sinto que fico um pouquinho mais forte, mesmo que eu não o conheça, pois a força dele, com certeza, se somará a minha”. Bem-vinda à vida Laura!