Maconha: Naturalmente devastadora

F√°cil de cultivar e de encontrar, relativamente barata, capaz de dar um “barato” legal, amparada por quem defende sua libera√ß√£o escorado em muletas cient√≠ficas capengas, a maconha sai destruindo e detonando tanto quanto suas cong√™neres tidas como mais barra pesada…

(Mat√©ria publicada na revista “droga&Fam√≠lia”, ano 01, n¬ļ 3, editada pela ABRAFAM)

O cigarro √© prejudicial porque pode, al√©m de matar quem fuma, matar quem n√£o fuma. O √°lcool √© problema de sa√ļde p√ļblica em v√°rios pa√≠ses (Ucr√Ęnia e R√ļssia, por exemplo, onde o h√°bito de se derrubar uma garrafa inteira de vodca, em goles √ļnicos, √© uma institui√ß√£o). Mas, de longe, nenhuma dessas duas drogas causa tanta pol√™mica e discuss√£o como a maconha. E tudo porque suas a√ß√Ķes no organismo podem ser defendidas tanto por quem a estima como por quem a detrata. Quem ousa defender o cigarro com argumentos cient√≠ficos sobre suas benesses? Pesquisadores ingleses tentaram e foram quase apedrejados. Com o √°lcool, o m√°ximo que se pode dizer em seu benef√≠cio √© que pequenas ingest√Ķes de vinho podem auxiliar o ritmo card√≠aco (o chamado bom coles-terol). Passou disso, as defesas s√≥ se escoram nos tamancos emocionais que essas duas drogas proporcionam. Com a maconha √© diferente. Suas propriedades terap√™uticas s√£o h√° muito tempo estudadas. E esse √© o ringue em que se batem os contendores.

Para come√ßo de conversa, ningu√©m usa espontaneamente a maconha por causa de suas propriedades terap√™uticas. Usa porque gosta, j√° que ela induz, conforme o estilo de uso, a um estado narc√≥tico que propicia ao usu√°rio a fuga da realidade. Seja porque motivo for. Se ela beneficia alguma coisa no organismo do sujeito, o faz por tabela. Da mesma forma, a pessoa que bebe n√£o o faz porque √© bom para o cora√ß√£o. Faz porque gosta e, a depender dos tragos, tamb√©m para dar uma escapadinha sabe-se l√° para onde. A maconha est√° entre as primeiras drogas il√≠citas a serem consumidas, at√© porque est√° presente no cotidiano do homem desde priscas eras. Ela aparece no Pen Ts’oo Ching, texto medicinal de origem chinesa, considerado o mais antigo do g√™nero no mundo (6.000 anos atr√°s), onde √© indicada para asma, c√≥licas menstruais e inflama√ß√Ķes da pele. Da√≠ se pode aferir que a celeuma em torno de suas propriedades ‚Äď nar-cotizantes e medicamentosas ‚Äď s√£o antigas.

Uma vez que surgiu nesse texto chin√™s, tudo indica que fazia parte do herb√°rio do imperador Nung, da China, h√° quase 5.000 anos. Outro tratado chin√™s de 2.000 anos indicava seu uso como anest√©sico em cirurgias. J√° na medicina Ayurv√©dica da √ćndia, a maconha √© recomendada como hipn√≥tico, analg√©sico e espasmol√≠tico. No Brasil, seus primeiros registros “medi-camentosos” s√£o desse s√©culo. “Os que propunham o uso m√©dico da maconha n√£o apresentam nenhuma novidade pois, na primeira edi√ß√£o da Farma-cop√©ia Brasileira, de 1929, a sua monografia inclu√≠a, junto com o extrato fluido (solu√ß√£o), o p√≥ e a tintura (solu√ß√£o alco√≥lica) de c√Ęnhamo indiano (cannabis)”, afirma o Dr. Jos√© Elias Murad, em seu livro “Maconha: A Toxicidade Silenciosa” (Editora O Lutador, 1996, 250 p√°gs.). Ele estende o assunto afirmando logo a seguir: ” J√° na segunda edi√ß√£o editada em 1959, ela foi retirada porque os especialistas da √©poca julgaram-na sem nenhum valor tarap√™utico”.

A toler√Ęncia com que se trata a comercializa√ß√£o da maconha talvez guarde rela√ß√£o com o modo de administra√ß√£o com que ela chega ao organismo.

Hoje v√°rios estudos foram e est√£o sendo conduzidos no sentido de verificar sua efic√°cia no tratamento de c√Ęncer, glaucoma, asma e epilepsia entre outros. Aventa-se a hip√≥tese de que a maconha possa ter propriedades anest√©sicas e antiasm√°ticas. Pesquisadores debatem em torno de sua efic√°cia como estimulante de apetite e quadros anor√©xicos. Isso quer dizer que os estudos a respeito de sua qualidade como medicamento prosseguem, o que d√° muni√ß√£o para aqueles que defendem o uso “toler√°vel e respons√°vel” da droga. A toler√Ęncia com que se trata a comercializa√ß√£o da maconha talvez guarde rela√ß√£o com o modo de administra√ß√£o com que ela chega ao organismo. A pol√≠cia, por exemplo, √© muito mais r√≠gida com outras drogas ‚Äď coca√≠na e crack ‚ÄĒ do que com essa velha conhecida, quem sabe porque sua forma cl√°ssica de utiliza√ß√£o resida numa rela√ß√£o muito pr√≥xima com o cigarro. Ali√°s, √© comum que o cigarro seja a primeira droga com a qual a maconha √© comparada. A maconha √© vendida em pequenas quantidades, normalmente suficientes para um ou dois cigarros. Feitas em trouxinhas de papel ou pl√°stico conhecidas por “parangas”, consiste num cigarro de tamanho usual que pode ser consumido por at√© tr√™s usu√°rios, dependendo da quantidade e qualidade da droga (a mistura, no Brasil, √© feita com capim, folhas secas e esterco de boi entre outras “subst√Ęncias”). A fuma√ßa √© aspirada intensamente e a pessoa chega a prender a respira√ß√£o ‚Äď algumas vezes apertando o nariz com os dedos ‚Äď para intensificar as conseq√ľ√™ncias.

Entre os utens√≠lios mais utilizados pelos usu√°rios est√£o os pap√©is para fechar o cigarro, conhecidos por “seda”, e pequenas piteiras conhecidas como “maricas”, usadas para fumar a droga at√© o fim do cigarro sem que para isso seja preciso queimar os dedos. Cachimbos tamb√©m podem ser utilizados para o consumo, mas isso √© raro porque pode consumir mais maconha para que sejam obtidos os mesmos efeitos. Derivada de um arbusto da fam√≠lia Moraceae que pode chegar a dois ou tr√™s metros de altura chamado Cannabis sativa, tamb√©m conhecido como c√Ęnhamo, a maconha pode ser cultivada em praticamente todos os tipo de solo e clima, raz√£o pela qual √© utilizada em culturas t√£o diferentes como a √Āfrica do Sul, os EUA, o Brasil e tantos outros. Planta di√≥ica (ou seja, tem esp√©cimes masculinos e femininos), sintetiza v√°rias subst√Ęncias (chamadas coletivamente de canabin√≥ides) dentre as quais os tr√™s principais s√£o o canabinol, o canabidiol e uma subst√Ęncia conhecida como delta-9-tetrahidrocanabinol (ou simplesmente THC), que provoca altera√ß√Ķes ps√≠quicas importantes no usu√°rio. O teor aproximado de canabin√≥ides √© de 2%, mas j√° se conseguiu teores da ordem de 11,8% no M√©xico e 27% na Holanda. A Cannabis indica, outra esp√©cie da fam√≠lia, por sua rusticidade √© cultivada a temperaturas baixas no Afeganist√£o e Paquist√£o. Seu teor de canabin√≥ides √© maior: cerca de 6%. Na Bahia, um hectare de maconha d√° lucro 45 vezes maior que o de tomate e 200 vezes mais que o de feij√£o.

Defensores de sua liberaliza√ß√£o batem na tecla de que a Cannabis sativa pode fornecer in√ļmeros outros produtos al√©m do cigarro de maconha. Seu caule e galhos lenhosos prestam-se √† fabrica√ß√£o de roupas e sapatos. Certo deputado verde prop√īs a confec√ß√£o desses vestu√°rios com a fibra da marijuana. Com baixos teores de THC, a Adidas lan√ßou nos EUA um t√™nis recicl√°vel feito de fibras da Cannabis. Sugestivamente deu-lhe o nome de Chronic, g√≠ria americana que designa o fumante de maconha. A Sharon’s Finest, companhia de comida natural da Calif√≥rnia, lan√ßou o Hemp Rella, queijo √† base de sementes de maconha. Cosm√©ticos, detergentes e pap√©is podem ser gerados a partir da planta. Bem se v√™em as m√ļltiplas propriedades da planta que vai muito al√©m da alucin√≥gena e terap√™utica. Mas se ficarmos somente na quest√£o da droga veremos que ela se relaciona intimamente com outra quest√£o que tamb√©m op√Ķe id√©ias: a quest√£o econ√īmica.

No Brasil, o plantio e a comercializa√ß√£o da maconha √© uma atividade rendosa. N√£o √© sem motivo que muitas pessoas abandonam o plantio de gr√£os. Na regi√£o conhecida como o “Pol√≠gono da Maconha”, regi√£o que vai de Petrolina, em Pernambuco, a Juazeiro, na Bahia, um hectare de maconha d√° lucro 45 vezes maior que o de tomate e 200 vezes mais que o de feij√£o. A import√Ęncia econ√īmica da maconha para o sert√£o de Pernambuco, por exemplo, √© not√°vel. Quando a pol√≠cia destr√≥i planta√ß√Ķes, os traficantes fogem e param de dar emprego aos agricultores. Sem dinheiro, esses deixam de movimentar o com√©rcio local e as vendas caem. Mas o plantio de maconha n√£o est√° restrito ao Nordeste, ainda que esse responda por mais de 90% das planta√ß√Ķes no Brasil. Norte, Sul e Sudeste j√° est√£o contabilizando bons lucros com seu cultivo, o que leva a pol√≠cia a dar batidas sistem√°ticas nessas regi√Ķes. Os traficantes contra-atacam: plantam em pequenas quantidades e as disfar√ßam em meio a outras culturas.

Se comparado ao que est√° sendo feito nos EUA, em termos de cultivo da planta, o tipo de manejo que se faz no Brasil √© jur√°ssico. Quando o governo Reagan (1980-1988) aumentou a press√£o contra os plantadores, esses dispararam um processo de cultivo altamente sofisticado. Em vez de grandes planta√ß√Ķes, passaram a abrigar a Cannabis em estufas montadas em apartamentos. Com pesquisa gen√©tica, alta tecnologia, manipula√ß√£o de luminosidade, de nutrientes e di√≥xido de carbono, os cultivadores colocaram nas ruas dos EUA esp√©cimes com um teor de THC mais alto e que completam a florada em apenas dois meses. Numa √°rea de dois metros quadrados se concentram 100 p√©s de maconha. Tudo controlado por computadores que zelam tamb√©m pela seguran√ßa dos cultivadores. Com softwares especialmente desenvolvidos eles podem se comunicar, dar alertas sobre a a√ß√£o da pol√≠cia e escapar da pris√£o. A libera√ß√£o lenta do THC no organismo faz com que seus efeitos se mantenham mesmo depois que se est√° s√≥brio.

Entre a popula√ß√£o estudantil, o uso da maconha, al√©m de provocar todos os efeitos conhecidos, causa a queda no rendimento escolar, quando n√£o o abandono dos estudos. A Abra√ßo ‚Äď Associa√ß√£o Brasileira Comunit√°ria e de Pais para a Preven√ß√£o do Abuso de Drogas, entidade de Belo Horizonte (MG) presidida pelo Dr. Murad, atendeu, entre novembro de 1991 e novembro de 1993, 325 pacientes. Segundo dados da institui√ß√£o, 68,4% desses eram usu√°rios de maconha e do total geral (325), 39% n√£o estavam engajados em nenhum tipo de atividade escolar. Dados do Cebrid ‚Äď Centro Brasileiro de Informa√ß√Ķes sobre Drogas Psicotr√≥picas, entidade da Universidade Federal Paulista ‚Äď Escola Paulista de Medicina, colhidos pelo professor Elisaldo Carlini em 10 capitais brasileiras, entre novembro de 1996 e novembro de 1997, indicaram que a maconha √© a segunda droga il√≠cita mais utilizada, perdendo apenas para os solventes (veja “droga&Fam√≠lia” n¬ļ 2).

H√° como se imaginar o esboroamento da vida do usu√°rio pesado da maconha. Como na grande maioria dos dependentes de outras drogas, o dependente da marijuana desenvolve uma s√©rie de artimanhas, subterf√ļgios, simula√ß√Ķes que dificultam sua recupera√ß√£o. At√© porque ele n√£o se considera doente da maconha. A libera√ß√£o lenta do THC em seu organismo faz com que seus efeitos se mantenham mesmo depois que est√° s√≥brio, para usar um jarg√£o mais pr√≥ximo do alcoolismo. Nesse sentido, as duas drogas ‚Äď maconha e √°lcool ‚Äď podem diferir radicalmente. “Quando um indiv√≠duo, sob a√ß√£o do √°lcool, procede de maneira alterada e, depois, s√≥brio, √© relembrado disso, ele tende a separar a sua pessoa deste tipo de atitude ou comportamento, com alega√ß√Ķes do tipo “eu estava embriagado”, exemplifica o Dr. Murad. Com o usu√°rio cr√īnico de maconha ocorre que, mesmo s√≥brio, ele permanece com a mesma personalidade desencadeada pela a√ß√£o da droga, recusando-se a voltar “ao normal”.

Kevin Mc Eneaney, da Phoenix House de Nova York (*) ‚Äď uma das maiores institui√ß√Ķes de tratamento de usu√°rios cr√īnicos de maconha ‚Äď, afirma que “mesmo quando fica sem fumar, duas ou tr√™s semanas, ao inv√©s de voltar ao normal, o usu√°rio teimosamente fica no estado de “racionalidade” que desenvolveu induzido pela maconha”. O Prof. Sidney Cohen, da Faculdade de Medicina da Universidade da Calif√≥rnia, EUA (*), que fez um dos mais completos estudos sobre o uso da maconha naquele pa√≠s, afirma que a toxicidade comportamental da maconha, proveniente do uso pesado da droga, mesmo por curtos per√≠odos (entre tr√™s e seis meses, por exemplo), induz a sutis ou pronunciadas modifica√ß√Ķes no estilo de vida e nos objetivos do usu√°rio. Quando consumida durante boa parte de horas em que est√° acordado, ele se entrega a uma sens√≠vel passividade e perda de interesse por atividades, pessoas e objetivos. Sua vida pode se esvair como a fuma√ßa da maconha que exala e que o encanta. Liberar o uso da maconha seria aumentar a mar√© de mortes por c√Ęncer, enfisema e edema pulmonar, bronquite, pneumonia, hipertens√£o arterial, infarto.

Ao contr√°rio de outras drogas, n√£o h√° casos comprovados de overdose por uso exclusivo de maconha. Com animais, entretanto, h√° casos registrados na Fran√ßa (d√©cada de 40) e em Viam√£o, Rio Grande do Sul (1995), quando animais morreram depois de ingerir grande quantidade da erva. Os que se batem por sua libera√ß√£o afirmam que ela nunca matou ningu√©m. A rela√ß√£o uso-√≥bito realmente nunca foi confirmada, mas a participa√ß√£o da maconha como co-autora de morte entre usu√°rios √© mais do que comprovada. J√° que √© comparada ao cigarro, uma vez fumada, h√° como imaginar que tanto quanto o tabaco provoque, no m√≠nimo, os mesmos malef√≠cios. Liberar o uso da maconha seria aumentar a mar√© de mortes por c√Ęncer, enfisema e edema pulmonar, bronquite, pneumonia, hipertens√£o arterial, infarto. Como diminui os reflexos e debilita a aten√ß√£o, acidentes de autom√≥veis s√£o mais comuns entre os usu√°rios de maconha. Um levantamento feito no Canad√° pelo Dr. Sterling Smith (*) mostrou que, entre os motoristas envolvidos em acidentes fatais, 16% deles haviam fumado maconha antes do evento. Em defesa da Cannabis, pode-se dizer que seu uso exclusivo n√£o leva seu usu√°rio a cometer atos violentos, como √© t√£o comum com o √°lcool, o crack e a coca√≠na. Ao que parece, ela n√£o modifica a personalidade de quem a usa, apenas a potencializa. “A maconha √© uma droga idiotizante”, afirma o Dr. Pablo Miguel Roig, psiquiatra do Instituto Greenwood, cl√≠nica de recupera√ß√£o de S√£o Paulo. “A psicose can√°bica √© um quadro psiqui√°trico muito grave, que se parece com a esquizofrenia paran√≥ide, provocada pelo efeito narcotizante da maconha”, explica. O que n√£o se sabe √© se ela detona uma psicose preexistente ou se provoca esse tipo de psicose. O Dr. Murad afirma em seu livro que “cada vez mais as pesquisas indicam que o uso da maconha √© a causa e n√£o a conseq√ľ√™ncia desses dist√ļrbios psicol√≥gicos”. S√≥ para ilustrar, no s√©culo XIX, o poeta Baudelaire escreveu o seguinte sobre a droga em seu livro “Para√≠so Artificial”: “O c√©rebro e o organismo sobre os quais opera o haxixe oferecer√£o apenas seus fen√īmenos comuns; aumentados, √© verdade, mas sempre fi√©is √†s suas origens”. Nunca matou ningu√©m comprovadamente e n√£o leva seus usu√°rios a atos violentos. Certo. E quanto ao suic√≠dio? √Č sabido que usu√°rio de drogas, sejam elas quais forem, est√£o muito mais propensos a dar cabo da pr√≥pria vida do que outras pessoas. Se foge da realidade por meio da droga, pode chegar um dia que nem ela esteja mais proporcionando isso. E √© a√≠ que a droga tornar-se um bilhete sem volta. O suic√≠dio √© a segunda causa de morte entre os jovens de 15 a 18 anos nos EUA, de acordo com o Dr. Murad. Em seu livro, ele afirma que um relat√≥rio americano concluiu que adolescentes daquele pa√≠s constituem o √ļnico grupo et√°rio cuja mortalidade subiu nas duas √ļltimas d√©cadas. “A raz√£o principal disso”, continua, “√© a defici√™ncia para dirigir, provocada por √°lcool e outros drogas, e o suic√≠dio relacionado com o uso de drogas”. O suic√≠dio entre os adolescentes americanos triplicou nas duas √ļltimas d√©cadas, o que coincide com a epidemia de uso de drogas, principalmente a maconha.

Mistura de crack com maconha, o mix que comp√Ķe “a craconha” leva solvente, √°cido, talco, m√°rmore e outros componentes menos nobres.

Muitos profissionais que lidam com jovens usu√°rios cr√īnicos de maconha diagnosticam, com preocupante const√Ęncia, crises psic√≥ticas aliadas a estados depressivos com tend√™ncias suicidas. Se a maconha n√£o provoca mortes diretamente pode, sem d√ļvida, provoc√°-las indiretamente, pelos efeitos do uso prolongado e/ou concomitante com outras drogas. Por isso, √† maconha n√£o deve ser debitada a exclusividade de um √≠ndice maior de suic√≠dios entre seus usu√°rios. No ano passado, a pol√≠cia do Rio de Janeiro estourou uma “boca de fumo” onde encontrou “craconha”. Mistura de crack com maconha, o mix que comp√Ķe “o produto” leva solvente, √°cido, talco, m√°rmore e outros componentes menos nobres ainda. O uso de maconha com √°lcool √© comum e conhecer os processos usados pelo organismo para metabolizar a droga √© suficiente para saber porque o corpo vai √† lona e pode n√£o se levantar mais: alguns canabin√≥ides deprimem o centro do v√īmito que, como se sabe, √© uma esp√©cie de defesa do indiv√≠duo alcoolizado para eliminar o √°lcool do organismo; ora se o v√īmito n√£o ocorre, por estar deprimido o seu centro pela a√ß√£o da maconha, √© l√≥gico que o risco de morte √© muito mais pronunciado.

Entretanto, os gladiadores que defendem e atacam a maconha encontram-se no coliseu maior da discuss√£o quando o tema √© a propriedade medicamentosa da Cannabis. Os primeiros dizem que seus efeitos terap√™uticos, em algumas situa√ß√Ķes, dep√Ķem a favor de sua libera√ß√£o e demonstram que sua a√ß√£o no organismo n√£o √© t√£o delet√©ria quanto se alardeia. Os segundos afirmam que, muito embora algumas a√ß√Ķes ben√©ficas da Cannabis tenham sido identificadas, drogas mais atuais, sintetizadas por laborat√≥rios, s√£o muito mais convenientes, eficazes, n√£o possuem a a√ß√£o narcotizante da droga e, portanto, desvestem (ou ao menos esmaecem bastante) a aura de “rem√©dio” que os primeiros colocam na maconha. Essa √© uma das discuss√Ķes mais acesas e o fogo foi ati√ßado depois que a prestigiosa revista brit√Ęnica New Scientist (www.newscientist.com) revelou que ningu√©m menos que a OMS ‚Äď Organiza√ß√£o Mundial de Sa√ļde censurou um relat√≥rio produzido pelos seus pr√≥prios pesquisadores no qual os mesmos afirmam que a maconha faz menos mal que o √°lcool e o cigarro.

Segundo a revista, o estudo comparativo entre a maconha e outras drogas legais, que foi suprimido do relat√≥rio sob press√£o da OMS, dizia que a maconha, se consumida na mesma escala do √°lcool e do cigarro, traria menos preju√≠zos ao organismo do que essas duas √ļltimas. O relat√≥rio tamb√©m conclu√≠a que embora existam provas dos efeitos prejudiciais do √°lcool sobre o feto, o mesmo n√£o se podia dizer da Cannnabis porque os estudos n√£o s√£o conclusivos. O trabalho esclarece ainda que a maconha n√£o causa bloqueio das vias respirat√≥rias, enfisema pulmonar ou qualquer outro dano √†s fun√ß√Ķes pulmonares e vicia menos que o cigarro e o √°lcool. Alguns profissionais que participaram do estudo defendem a posi√ß√£o da OMS alegando que a pesquisa n√£o √© √ļtil do ponto de vista social, uma vez que, no subliminar, pode induzir ao consumo da maconha. Seria uma aut√™ntica “escolha de Sofia”, ou seja, se √© para se drogar, se √© para se entregar a algum v√≠cio, que o usu√°rio danifique o seu organismo e sua mente com a droga menos prejudicial. Absurdo!

“A maconha √© uma droga idiotizante; ela est√° sendo divulgada como uma droga fraca, uma droga que faz menos mal do que o cigarro”.

No caso dos medicamentos antiem√©ticos, muito embora o FDA ‚Äď Food and Drugs Administration tenha liberado a comercializa√ß√£o de um produto √† base de Cannabis para esse tipo de tratamento, as conclus√Ķes quanto √† sua efic√°cia s√£o discut√≠veis. Tanto o Marinol, utilizado nos EUA, quanto o Nabilone, presente no Canad√°, s√£o empregados em forma de c√°psulas para o controle de crises de n√°useas e v√īmitos em pacientes com c√Ęncer submetidos √† quimioterapia. Resultados colhidos em algumas pesquisas demonstram que cerca de 30% a 50% dos pacientes realmente apresentam bons resultados, mas tais percentuais s√£o achados principalmente em pessoas mais jovens e, mesmo assim, n√£o foram melhores do que alguns dos antiem√©ticos cl√°ssicos conseguiriam tamb√©m produzir. Tais medicamentos s√£o utilizados ainda na caquexia, uma condi√ß√£o muito presente nos pacientes HIV positivos, caracterizada pela aus√™ncia de apetite, com conseq√ľente surgimento de quadros an√™micos que concorrem para o agravamento da doen√ßa. Com o Marinol e o Nabilone, tais pacientes teriam seu apetite restaurado.

O Dr. George Hyman, oncologista da Universidade da Col√ļmbia, EUA (*), afirma:”Como o THC √© sol√ļvel nas gorduras, n√£o pode ser injetado por via endovenosa; administrado por via oral ou fumado, sua biodisponibilidade (que corresponde √† quantidade ativa da droga que entra na corrente sang√ľinea) √© de apenas 6% a 20%, o que fica bem abaixo da metoclopramida (Plasil), por exemplo, droga que pode ser administrada por via endovenosa e que d√° uma biodisponibilidade de 100% com poucos efeitos colaterais e nenhuma a√ß√£o mental”. Bem se v√™ que tudo o que diz respeito √†s propriedades terap√™uticas da maconha ainda s√£o objeto de estudos que devem ser aprofundados. Apesar de acompanhar o homem desde seus prim√≥rdios, a maconha obteve o interesse da comunidade cient√≠fica apenas a partir de 1964, quando o pesquisador Raphael Mechoulan, da Universidade de Tel Aviv, Israel, extraiu e sintetizou o THC. “A maconha e o THC ainda n√£o mostraram ser realmente √ļteis nas patologias descritas; mesmo quando suas a√ß√Ķes s√£o comprovadas, elas s√£o inferiores √†s de outras drogas encontradas no mercado, que t√™m a vantagem de n√£o apresentarem efeitos colaterais, principalmente ps√≠quicos”, alerta o Dr. Murad.

De tudo isso o que se pode inferir? Pelo menos uma coisa: maconha √© droga. Alegar que ela possui alguma condi√ß√£o medicinal n√£o tira seu cerne maior de droga. Se a sociedade continuar a bater nessa tecla, ter√° de permitir que a coca√≠na seja liberada (afinal, Freud tratou e se tratou com coca√≠na), a morfina, os ansiol√≠ticos e toda um sorte imensa de drogas que possuem um subextrato de ameniza√ß√£o de sintomas danosos ao organismo. “Volto a dizer: a maconha √© uma droga idiotizante; ela est√° sendo divulgada como uma droga fraca, uma droga que faz menos mal do que o cigarro, que n√£o tem conseq√ľ√™ncia nenhuma e isso, al√©m de ser uma mentira deslavada, √© uma irresponsabilidade”, dispara o Dr. Roig. “Quando ou√ßo o Gabeira, o Lob√£o, a Rita Lee divulgarem essa droga fico revoltado porque eles s√≥ alimentam uma popula√ß√£o de adolescentes que usam ou v√£o usar maconha com conseq√ľ√™ncias funestas como baixo rendimento escolar, aten√ß√£o e mem√≥ria alterados, desmotiva√ß√£o; e tudo isso leva a um desempenho, escolar e de vida, med√≠ocre”, sentencia.

“Tenho visto usu√°rios de drogas de 18 anos ou mais que quando se livram da maconha come√ßam a brincar com miniaturas de carros ou bonecas”.

O Dr. Mitchell Rosenthal, diretor do Phoenix House, de Nova York (*), a maior institui√ß√£o de tratamento de usu√°rios de drogas dos EUA, enuncia, como que referendando o alerta do Dr. Roig, que “in√ļmeros adolescentes e jovens n√£o v√£o amadurecer como deveriam, n√£o ter√£o os ganhos intelectuais que deveriam ter nos seus anos de crescimento, n√£o se tornar√£o os cidad√£os produtivos e capazes de que a sociedade precisa”. E o uso de maconha colabora decisivamente para isso. Para ilustrar, o Dr. Mitchell tira do jaleco uma conclus√£o extra√≠da de pesquisas americanas que demonstram que “crescem as evid√™ncias de que, entre os adolescentes e os jovens, a maconha √© uma das maiores causas de problemas psiqui√°tricos que os EUA v√™m enfrentando”. Corroborando a assertiva do m√©dico, o NIDA ‚ÄĒ National Institute of Drug Abuse (Instituto Nacional de Abuso de Drogas, dos EUA) informa que “a cada ano, aproximadamente, 60 mil pessoas, a maioria jovens brancos que vivem com os pais, procuram tratamento para problemas relacionados ao uso da maconha; esse tratamento, geralmente ambulatorial, dura quatro meses em m√©dia, registrando um √≠ndice de retorno de cerca de 20%.”

Entorpecidos pela a√ß√£o da maconha e drogas acess√≥rias, o adolescente poder√° fazer emergir uma pessoa com conceitos distorcidos. O c√©rebro, espremido e afetado por anos de uso das drogas, buscar√° referenciais dos momentos em que n√£o estava afetado, levando o usu√°rio a comportamentos incompat√≠veis com sua idade. Ele simplesmente p√°ra de amadurecer e crescer no momento em que come√ßa a se drogar. O Dr. Jason Baron, diretor m√©dico do Hospital “Deer Park”, de Houston, EUA (*), que trata exclusivamente de usu√°rios de drogas na idade de 14 a 25 anos, relata: “Tenho visto usu√°rios de drogas de 18 anos ou mais que quando se livram da maconha come√ßam a brincar com miniaturas de carros ou bonecas, tentando retornar ao tempo que n√£o tiveram ou conheceram; felizmente, com tratamento adequado, pode-se ensinar-lhes certas habilidades que lhes permite recapturar a falta dos anos da inf√Ęncia ou adolesc√™ncia perdidos”.

O Dr. Mitchell Rosenthal, diretor do Phoenix House, de Nova York (*), a maior institui√ß√£o de tratamento de usu√°rios de drogas dos EUA, enuncia, como que referendando o alerta do Dr. Roig, que “in√ļmeros adolescentes e jovens n√£o v√£o amadurecer como deveriam, n√£o ter√£o os ganhos intelectuais que deveriam ter nos seus anos de crescimento, n√£o se tornar√£o os cidad√£os produtivos e capazes de que a sociedade precisa”. E o uso de maconha colabora decisivamente para isso. Para ilustrar, o Dr. Mitchell tira do jaleco uma conclus√£o extra√≠da de pesquisas americanas que demonstram que “crescem as evid√™ncias de que, entre os adolescentes e os jovens, a maconha √© uma das maiores causas de problemas psiqui√°tricos que os EUA v√™m enfrentando”. Corroborando a assertiva do m√©dico, o NIDA ‚ÄĒ National Institute of Drug Abuse (Instituto Nacional de Abuso de Drogas, dos EUA) informa que “a cada ano, aproximadamente, 60 mil pessoas, a maioria jovens brancos que vivem com os pais, procuram tratamento para problemas relacionados ao uso da maconha; esse tratamento, geralmente ambulatorial, dura quatro meses em m√©dia, registrando um √≠ndice de retorno de cerca de 20%.”

Entorpecidos pela a√ß√£o da maconha e drogas acess√≥rias, o adolescente poder√° fazer emergir uma pessoa com conceitos distorcidos. O c√©rebro, espremido e afetado por anos de uso das drogas, buscar√° referenciais dos momentos em que n√£o estava afetado, levando o usu√°rio a comportamentos incompat√≠veis com sua idade. Ele simplesmente p√°ra de amadurecer e crescer no momento em que come√ßa a se drogar. O Dr. Jason Baron, diretor m√©dico do Hospital “Deer Park”, de Houston, EUA (*), que trata exclusivamente de usu√°rios de drogas na idade de 14 a 25 anos, relata: “Tenho visto usu√°rios de drogas de 18 anos ou mais que quando se livram da maconha come√ßam a brincar com miniaturas de carros ou bonecas, tentando retornar ao tempo que n√£o tiveram ou conheceram; felizmente, com tratamento adequado, pode-se ensinar-lhes certas habilidades que lhes permite recapturar a falta dos anos da inf√Ęncia ou adolesc√™ncia perdidos”.

O Dr. Roig postula uma tese mais sombria quando afirma que a sociedade de hoje, por estar saturada, est√° descuidando das novas gera√ß√Ķes. “Quando h√° satura√ß√£o, a sociedade come√ßa a machucar as novas gera√ß√Ķes”. Ele fala de permissividade. √Č como se fosse a lei da evolu√ß√£o natural. A falta de controle d√° ra√≠zes esqu√°lidas e imaturas, mas abundantes, a uma gera√ß√£o que n√£o est√° muito preocupada em herdar bons valores, n√£o se agredir e nem aos outros. S√£o essas pessoas, sem o menor verniz de cidad√£o (at√© porque, no caminho em que se encontram, n√£o sabem o que √© cidadania), que moldar√£o as pr√≥ximas gera√ß√Ķes. “Podemos prever o crescimento de uma popula√ß√£o de imaturos, adultos n√£o qualificados, v√°rios deles incapazes de viver sem um suporte social, econ√īmico e cl√≠nico; com o tempo, teremos um n√ļmero inimagin√°vel de cidad√£os emocional, social e intelectualmente deficientes”, sinaliza o Dr. Rosenthal. Ser√° que devemos assistir passivamente aos herdeiros desse mundo bebendo, fumando, injetando e inalando a morte em nome de uma individualidade torturada e entortada pelas drogas?